Como modelar a CAA
Entregar um aparelho de comunicação e esperar é a forma mais comum de a CAA fracassar. O que funciona é modelar: usar a prancha você mesmo, em voz alta, todo dia, sem esperar nada em troca.
Em resumo: fale e toque ao mesmo tempo. Diga a frase, toque nas duas ou três palavras da prancha que a sustentam e siga em frente. Não faça pergunta, não espere a vez, não exija nada. Você está mostrando para que serve a prancha.
O que é modelar, exatamente
O nome formal é estimulação de linguagem assistida, e é simplesmente isto: o parceiro de comunicação usa o sistema de CAA enquanto fala, para que quem está aprendendo veja a própria língua representada na prancha que se espera que use. Ninguém aprende a falar sem antes ouvir milhares de horas de fala. Uma criança aprendendo uma prancha costuma tê-la visto em uso um punhado de vezes — e quase sempre para lhe exigirem algo.
Por que é a coisa mais valiosa que você pode fazer
Todo o resto de um sistema de CAA — o vocabulário, os pictogramas, a voz, o aparelho — fica inerte até alguém demonstrar para que aquilo serve. Modelar é também a única parte que não custa nada e não exige equipamento, e a parte mais pulada, porque é esquisito narrar a própria vida cutucando um tablet. Deixa de ser esquisito em mais ou menos uma semana.
Como fazer
- Mantenha a prancha onde você está. Não dá para modelar um aparelho que está dentro de uma mochila. Ele precisa estar aberto, carregado e ao alcance durante as partes comuns do dia.
- Diga e toque junto. Fale a frase inteira normalmente e toque na palavra ou duas que carregam o sentido: “você quer mais?”, “vamos ir”. Você não está se transcrevendo; está apontando as palavras que sustentam a frase.
- Modele uma palavra acima de onde a pessoa está. Se ela usa palavras soltas, modele duas. Se usa duas, modele três. Longe o bastante para puxar, perto o bastante para alcançar.
- Não espere nada em troca. Sem dica, sem conduzir a mão, sem “agora você”. Um modelo com uma exigência grudada deixa de ser modelo e vira prova.
- Modele a língua inteira, não só pedidos. Comente, recuse, reclame, brinque, cumprimente, mande parar. Se a única coisa modelada for pedir lanche, será a única coisa para a qual a prancha vai servir.
Os erros de sempre
- Transformar em teste. “O que é isso?”, “me mostra mais”, “primeiro diz o que você quer”. A comunicação deixa de ser útil no instante em que vira exame.
- Segurar algo para forçar o uso. Manter o lanche refém até o botão ser apertado ensina que a prancha é um pedágio. Dê o lanche; modele a palavra.
- Modelar só substantivos. Comida e brinquedo são fáceis de modelar e não levam a lugar nenhum. As palavras nucleares — mais, ir, parar, não, querer — é que constroem frases.
- Guardar quando não é “hora da CAA”. Ninguém aprende uma língua disponível só por meia hora às terças.
Encaixando num dia comum
Você não precisa de sessões. Precisa das rotinas que já se repetem, porque é a repetição que ensina:
- Refeições e lanches — mais, acabou, não gosto, quero, ajuda.
- Transições — ir, parar, esperar, agora não, vem. Sair de casa gera exatamente o mesmo punhado de palavras toda vez.
- Brincadeira e livros — de novo, olha, engraçado, minha vez, diferente. É aqui que se modela o comentar, que é a metade da língua onde os pedidos nunca chegam.
Quanto tempo até funcionar
Mais do que parece razoável, e vale se preparar para isso. É normal modelar por semanas ou meses antes de a pessoa iniciar algo sozinha, e é normal que o primeiro uso espontâneo seja algo que você nunca modelou de propósito. Quem obtém resultado é quem continuou modelando enquanto aparentemente nada acontecia. Se parece que você está falando sozinho, está fazendo certo.
Abra a prancha e experimente agora. Modele uma palavra — mais — nas próximas três vezes em que ela surgir naturalmente. Isso é uma primeira sessão completa.
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